sexta-feira, 2 de abril de 2010

Bacalhau

Um dia triste, fosco, pesado. O mundo silenciara sobre um forçoso respeito cristão.

Ele olhou o oratório. Não encorajou-se a ajoelhar-se. Fitou o rosário, sentiu grande desânimo em desfiá-lo na ladainha.

Levantou-se. Não penteou-se. Não escovou os dentes. Não atirou água na cara. O mundo, como seu Espírito, parecia ter caído no caos.

Mas sentia fome. Também teve desejos de copular, urinar, entornar cerveja e cana, assar carne ao espeto.

Resistiu a tudo isso. Iria comer bacalhau.

Ah, o bacalhau... suas glândulas salivaram ao inspirar seu cozimento.

E banqueteou, voraz, cheio de glutonaria, deitando azeite e batata, metendo todo o tempero na iguaria que fumarava no seu fundo prato.

Comeu muito. Depois dormiu saciado e sorridente, o ventre intumescido, roncando e assoviando mergulhado no seu pesado sono.

Estava quite com Deus e com os homens. Sentia-se o mais genuíno dos cristãos. E o amanhã... ah, o amanhã, que importava, com suas difamações, suas traições armadas aos pés dos seus semelhantes, suas demandas, suas maledicências.

Nada disso abalava seu Espírito, purificado pelo ritual da bacalhoada.

Autor: Desconhecido

Um comentário:

maria disse...

É PORQUE NÃO SE IMPORTA MAIS OS ATOS DOS IRMÃOS. PRINCIPALMENTE SE ELE TEM OU NÃO ALGO PARA COMER!!!
PARA QUÊ FAZER JEJUM? O PRÓPRIO ARMÁRIO ESTÁ REPLETO!